quarta-feira, 25 de abril de 2012

Pastelaria Princesa





Continuo a pensar piamente que as recordações, são eternamente fonte de energia que ilumina o subconsciente e que permitem ver à distância lugares encantáveis, que  teimosamente resistem ao envelhecimento. Por momentos dou comigo a pensar na mais emblemática pastelaria, snack e salão de chá de Lourenço Marques; a Princesa por todos conhecida e que ficava no alargado espaço comercial do prédio sito no cruzamento da Av. 24 de Julho e a Princesa Patrícia(hoje Salvador Allende) e daí o nome numa clara homenagem à indigitada noiva de D. Manuel ll, que ainda no tempo da monarquia visitara LM. Ao lado ficava o palácio do presidente da edilidade  e a um passo vislumbrava-se a imponente mansão dos velhos colonos, que contava com uma associação ligada à  natação. Às cinco da tarde  ainda o sol fazia transpirar os transeuntes  e, já à sua esplanada decorada com correntes de ferro  alinhadas em ligeira flecha a pilares de granito trabalhado, chegavam círculos de amigos de longa data que ali marcavam o ponto de encontro, para a habitual cavaqueira selada sempre com um aperto de mão pelos mais velhos e um olhar cúmplice ou um beijo intimo trocado pelos adolescentes. Reinava a boa disposição entre todos os rostos, que tinham pelos os empregados de mesa a estima que lhes era merecida. Por lá trabalhava o pai do famoso e único toureiro negro que se conhece, o moçambicano Ricardo Chibanga que se orgulhava dos feitos do seu filho nas principais arenas da Península Ibérica. Os clientes da bica eram logo presenteados com  o copo de água para se afogar a cafeína, mas haviam os que não prescindiam dos seus apaladados pregos, acompanhados pelas boas marcas de cerveja e o grupo de senhoras conhecidas como  madames do chá das cinco, que faziam questão de tomar a bebida exótica, naquele tempo servida em bule, acompanhado de torrada simples , croissant misto ou barrado pelo melhor jam (compota sul-africana). Os mais jovens quase sempre estudantes ,que circulavam  pela artéria mais central da capital moçambicana, a 24 de Julho a caminho dos estabelecimentos escolares faziam um ligeiro compasso de espera  na secção de confeitaria, observando a vitrina dos bolos e depois era vê-los puxar pela moeda de dois e quinhentos, resgatada em casa em prol de uma falsa compra de um caderno diário ou de uma esferográfica BIC(na moda) para saciar a gulosice definida entre uma nata bem recheada ou a volumosa bola de Berlim e até um avantajado palmier adoçado. A Princesa tinha também o seu salão onde eram servidos bitoques bem condimentados e alguns combinados.  Aos domingos já era da praxe, a fila de automóveis que alinhavam junto à pastelaria para levarem  a tradicional caixinha  de bolos sortidos para o lanche da tarde. Também eu muitas vezes depois do trabalho, me deixava arrastar pelo sentido do desejo até aquele espaço urbano e acolhedor, onde todos eram benvindos  para tomar o café aromático ou deleitados lanches. Hoje nas minhas memórias de vida ainda pareço ouvir o borburinho incessante do cruzamento das palavras, do arrastar das cadeiras e de risos cúmplices dos seus frequentadores, que me lembram o fulgor da Princesa que marcou um tempo ao qual a evocação dará mais ênfase à sua existência.

Manuel Terra

segunda-feira, 12 de março de 2012

Jardim Zoológico



Avivar as memórias, são sempre uma forma de não deixar esquecer todo um tempo que já deixou de existir, recuperar reencontros com o passado marcado por vivência inesquecível, recheada de bons momentos e alegres convívios cheios de animação, mas que com muita saudade os anos não trazem mais. Na cidade das rubras acácias aos domingos havia diversificados entretimentos para todas as idades e na minha retina ainda estão as tardes marcantes passadas no Jardim Zoológico, que ficava situado em pleno Bairro do Jardim já na periferia da cidade. O seu interior contemplava uma imensa superfície bem repovoada de vegetação , predominavam árvores de grande porte que transformavam aquele espaço numa espécie de selva urbana , que dava expressão à grande biodiversidade e qualidade da fauna em Moçambique, onde era possível observar as áreas demarcadas rotuladas de aldeias, habitats concebidos para albergar elefantes, rinocerontes, hipopótamos, leões, leopardos, zebras, impalas, girafas, crocodilos, gorilas, pequenos saguis e outras espécies. Era a oportunidade de ver de perto animais selvagens já indiferentes à presença de público e a aldeia dos macacos fazia as delícias da garotada, com as habituais traquinices dos primatas que davam show nos baloiços mas que sabiam cobrar depois umas bananas habilmente descascadas ou uma dose de amendoins. Porém não era só a atração animal a razão da vasta afluência de visitantes ao Parque Zoo, que comportava no seu interior um campo de equitação onde se realizavam algumas provas hípicas ou o desfile das melhores raças de cavalos, mas muito por arte de um grande artista, que atuava num ringue e que fazia rir a numerosa plateia. Sim todos os garotos da minha geração, devem-se recordar do palhaço Pepito que entre a comédia e o riso, se escondia o caráter de um grande homem. Eram fabulosas as suas cenas sempre retratadas de humor contagiante, que se tornava mais intenso quando chamava para o palco os petizes mais atrevidos; a cada palavra ou gesto a miudagem e porque não os nossos pais ou avós, rejubilavam. Também atuavam no Zoo a dupla de palhaços Emiliano & Ivone. Findos os espetáculos havia sempre lugar à caminhada dos passeantes pelo quiosque da Socigel ,que produzia bons sorvetes para saciar a sede e a gulosice. De facto esses momentos sensitivos que foram tão gratos, dizem-nos quanto fomos felizes por aquelas paragens.


Manuel Terra

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Casa Coimbra






Voltando aqueles belos tempos vividos na Pérola do Índico, as recordações são sempre como buracos sem fundo onde escorrem sonhos, aventuras, fascínios, cheiros e sons de África . Mas há lembranças que jamais poderão ser revistas, porque a vontade dos homens submissa a interesses não compatíveis com a História, com detalhes de uma arquitetura  de várias influências e até de tempos, vai eliminando espaços míticos . É sempre com muita mágoa, quando tudo se esvaia numa espécie de dormência eterna. Há poucos dias fui tocado pela notícia da demolição em plena baixa da capital moçambicana, do edifício Casa Coimbra edificado em 1940 traçado e construído a bom gosto, muito bem preservado  mandado construir por dois súbditos paquistaneses, que a exemplo de muitos outros compatriotas deixaram a chamada Índia inglesa e aportaram a LM e a outros pontos do país, nos primórdios do século XX onde se distinguiram como grandes comerciantes. A Casa Coimbra era um símbolo de referência do comércio local, com secções de alfaiataria, bijutarias, artigos orientais  como também as últimas modas inglesas, perfumes, malas, carteiras e muito mais. Os andares superiores estavam reservados para escritórios de advogados, médicos onde o meu dentista exercia a sua atividade. Situado em pleno coração da baixa citadina, com vistas para o velhinho Edifício Pott( ainda hoje em ruínas, depois do violento incêndio de 1990) contemplava ainda o transformado Scala e o Continental(fechado) sem a resplandecência das românticas esplanadas. No seu lugar será implantado um moderno complexo em forma de torre com 30 andares, por iniciativa do Banco Central de Moçambique. Ainda recordo com saudade os tempos em que os laurentinos nos seus passeios habituais pela Av. da República (hoje 25 de Setembro) paravam não raras as vezes junto ao referido estabelecimento, para fixarem o olhar para o placard eletrónico suportado por torres metálicas, onde se podiam ler os títulos das principais noticias e os casos de última hora. Eram instantes de ligeira acalmia, indiferentes ao trânsito e o bulício da zona. Agora só já restam montões de entulho, numa  amalgama de ferros e cimento, que serão lançados para qualquer lixeira, até que um dia fiquem soterradas todas as essências de mais de sete décadas de existência

Manuel Terra

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Parque Silva Pereira




Neste rol de evocações que se vão sucedendo, a ufania da minha juventude tocada pelos bons momentos e instantes de felicidade vividos  em L.M, relembra-me as passagens quase diárias pelo Parque Silva Pereira (hoje Jardim dos professores) zona verde, muito tropical procurado em tardes solarengas por muitos alunos que frequentavam o Liceu Salazar (hoje Escola Secundária Josina Machel) no início da Av. Brito Camacho (hoje Patrice Lumumba) e que se situava mesmo defronte do parque. Contrariamente ao apelido atual, naquele tempo era o verdadeiro jardim dos estudantes que apenas tinham que atravessar a passadeira, para atingirem a encantadora zona bem orlada de árvores e canteiros . Ao fundo o seu belo miradouro coberto de trepadeiras, de onde era possível deslumbrar o olhar contemplando no horizonte, a majestosa Baía Espírito Santo , os navios que cruzavam as suas águas e a íngreme barreira da Maxaquene. A vegetação verdejante do parque, marcada pela beleza multicolor das suas plantas, contrastava familiarmente com os bancos já gastos pela torreira do sol ou a impiedade da chuva e, todos lhes davam uma importância muito especial tornando-o num ponto de convergência  de muitos miúdos e adolescentes, que de pasta na mão aguardavam com tranquilidade, mais um dia de aulas. Era seguramente, um local de lazer e de estudo e que servia de igual modo para os mais novos descarregarem a adrenalina e os mais espigadotes  trocarem olhares amorosos ,com as moças que se posicionavam nos varandins da ala feminina do liceu. Ali tinham lugar habituais pândegas académicas, que escondiam muitas emoções e histórias proibidas. Fazia parte da rotina dos sábados no parque, as atividades da Mocidade Portuguesa organização vincada por uma estrutura pré-militar, integrada como disciplina obrigatória  regida de inexorável pontualidade, decretada pelo toque da ruidosa campainha que se fazia ouvir no átrio do estabelecimento de ensino. Passava-mos meia manhã encafuados em fardamentos de camisa verde escura e calção de caqui,  bivaque  na cabeça  marchando e em exercícios físicos, seguidos com natural curiosidade por  pedestres que por ali circulavam. O parque tornara-se também  itinerário quase obrigatório de  turistas, que  viajando por vários continentes, se hospedavam no vizinho Hotel Cardoso e que em momentos de visível  descontração se deitavam sobre a relva ou tiravam fotografias de grupo. São estes  factos uma constante da vida, recordações de um tempo áureo que deixa marcas e que me obriga a constantes divagações por vias do passado.

Manuel Terra

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Épocas de ouro do futebol moçambicano





Muito interessante a história de futebolistas moçambicanos, retratada agora em obra escrita pela mão da  autora  Paola Rolletta antiga correspondente da RTP, salvo seja em Roma. Mais de duzentas páginas traçam o percurso do futebol no território das acácias vermelhas  e da ascensão dos seus intérpretes ,concretamente a partir das décadas de 50,60 e meados de 70 já que a partir de Junho de 1975 data da independência, o governo travou  as saídas de atletas lá nascidos. Soube que no dia 15 de Setembro o livro finta finta que contou com vários apoios, foi lançado em Maputo depois de intenso trabalho de pesquisa, que entendo não ter sido fácil e cuja venda deverá constituir sucesso. Muito honestamente, considero uma honra que alguém se tenha lembrado de enaltecer e não deixado cair no esquecimento, o mérito e currículo de quase meia centena de atletas e técnicos que em Moçambique ou Portugal revelaram as suas potencialidades. Foram jovens que independentemente da  cor de pele, sonharam um dia ser famosos e jogarem nos grandes palcos do pontapé na bola. José Craveirinha, saudoso poeta moçambicano idealizava que através de uma simples bola e da forma de jogar ou organizar o próprio jogo, se conhecia a história de um povo. O futebol era um espetáculo de grandes paixões e jamais esquecerei que um dia quatro futebolistas moçambicanos, não brancos (Coluna, Vicente, Eusébio e Hilário) todos eles titulares ,deram expressão à célebre seleção dos magriços na Copa do Mundo em 66 disputada em Inglaterra, exibindo classe e crença perante o espanto do velho continente, habitualmente acostumado ver militar nas suas escolhas futebolistas de raça branca. Portugal subiu ao pódio conquistando um brilhante 3º lugar( praticamente desviado da final) e o rei Eusébio tornara-se o melhor artilheiro da prova. Portugal exultou e por simpatia Moçambique ficou a conhecer-se melhor. Era o reflexo de um tempo, em que naquele solo tropical milhares de miúdos descalços ou não, davam os primeiros pontapés na bola em inúmeros baldios que proliferavam em bairros míticos e ,que mais tarde procuravam clubes federados  tentando dar nas vistas. Assim  aconteceu com Albasini, Juca, Wilson, Costa Pereira, Matateu( a quem os ingleses chamaram a oitava maravilha do mundo), Perdigão, Otávio de Sá, Acúrsio,  Carlitos, Sitói, Rui Rodrigues, Brassard(pai),Nene, Mário  João, Calado, Pérides,  Matine, Ricardo, Armando Manhiça, Manaca, Sidónio, Messias, Jambane ,Artur Semedo ,Shéu, Néné, Babalito, Alfredo e os irmãos Abel, Zeca e Roma, nomes que neste momento me ocorrem. Após o 25 de Abril chegaram a Portugal onde alinharam em diversos clubes, Arménio, Baltasar(passou ao lado de uma grande carreira),Márito, Tayob, Sérgio Albasini, José Júlio, Djão, Fumito, Rogério, Batista, Fernando Duarte, Torres e os irmãos José Luís e Jorge Silva, que representaram o S.L e Benfica. Ao que dizem Nuro Americano(excelente guarda-redes) e Joaquim João (irmão de Mário João) não obteram  visto de saída, eles que já teriam compromisso com o S.L e Benfica. Devidamente autorizados chegaram a Portugal na década 80, Chiquinho Conde, Calton Banza(grande estrela, que chegou já com 33 anos)Aly Hassan, Fumo, Dário e recentemente Mexia. Pena fora que a obra lançada não fosse mais abrangente e focasse os grandes êxitos  do hóquei em patins e do basquetebol, gravados a letras de ouro e propalados além fronteiras. Moçambique tornou-se um berço cíclico de desportistas predestinados que à luz do sol ou ao brilhar da noite, conquistaram o estatuto de estrelas. Resta-nos esperar que as edições do finta finta cheguem também às bancas de Portugal, onde as esperam grande faixa de leitores. Eu prometo a mim próprio que terá lugar de destaque na minha estante e que tentarei sempre fintar o presente para não perder jamais o encontro com o passado.

Manuel Terra

sábado, 27 de agosto de 2011

Jardim D. Berta




Neste devoto costume apaixonante de evocar um sem número de recordações, talvez inspirado pelo o esplendor do verão; sim é esse brilho da natureza que ilumina os percursos pedestres, quantas vezes sob um sol abrasador que em tempos idos, eu e um grupo alargado nos metíamos ao caminho num trajeto  projetado entre o Bairro da Munhuana  e a Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque(hoje Escola 1º de Maio), com especial ênfase no período da tarde. Com mais de três quilómetros para andar, tínhamos que acelerar o passo não só para não chegarmos atrasados às aulas, como também para uma pequena pausa no Jardim D. Berta(hoje Jardim Nangade) já muito próximo do estabelecimento escolar e que ficava localizado na Av. Augusto Castilho(hoje Vladimir Lénin) e que confrontava com a Av. Latino Coelho( hoje Maguiguana), frente ao Super-mercado o Barateiro. Era um espaço verde ilustrado por pequenos arruamentos de alcatrão, onde estavam fixos bancos alinhados a pequenas distâncias. No centro eu ainda recordo a sua pequena mas bela taça de onde jorrava do alto da sua pia ,um jato de água que na sua curva descendente banhava o anel de recolha numa sinfonia de agradável toada , que convidava ao relaxe os mais afanados. Ao fundo figurava o parque infantil , onde os petizes davam largas à imaginação sob o olhar atento de muitas avós bonançosas. Em lugar de destaque perfilava-se sobre um pequeno mural , o busto trabalhado em mármore branco da ilustre senhora que dava o nome àquela zona verde, arborizada com espécies  nativas e com canteiros exalando o perfume e a beleza das suas plantas. Contudo a corrente do pensamento centraliza-se por momentos no chafariz em ferro fundido, que  nos obrigava religiosamente a uma paragem obrigatória para saciarmos a sede provocada pelo ardente e sufocante calor que se fazia sentir. Enfim, era quase um oásis no meio de um deserto. Refeitos do cansaço da jornada fazíamos quase em passo corrida, a pequena distância até à escola. Já a noite caíra e o sol deixava de alumiar, quando retornávamos a caminhada até ao nosso bairro, sem que antes  nova paragem viesse a acontecer numa espécie de despedida até ao dia seguinte, agora com o jardim quase vazio coberto por estrelas cintilantes, que contemplavam alguns casais de namorados que prefiguravam promessas de amor desmedido. São estas imagens tão peculiares que me tocam, prerrogativas da nostalgia que expressa da forma mais pura, quanto representaram para a minha geração as passagens gratas por aquele familiar jardim.


Manuel Terra

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A aldeia dos pescadores



Continuando a arrumar as minhas recordações na gaveta das memórias,  levado pela constante persistência de citar locais, personagens e fatos, lembrei-me  talvez tocado pelo sol rasgado e abrasador  que se faz sentir, das belas imagens que caraterizavam a típica aldeia dos pescadores muito próxima da zona terminal da Costa do Sol. Para se chegar até lá, caminhava-se por uma estrada estreita servida por uma pequena ponte de madeira, só transitável para veículos ligeiros e já desgastada pela erosão das águas, que permitia o acesso a uma zona extensa de mangal coberta na preia-mar e visível na baixa. Por lá habitava numa considerável área de vegetação circundada por casas carateristicas, um núcleo de homens nativos que se dedicavam à pesca artesanal e apanha de amêijoas . Sem dúvida, uma comunidade honrada e trabalhadora quase alheia ao descanso, que em pequenos barcos por si construídos faziam-se ao mar  para a captura do pescado. Em terra a azáfama das mamanas(mulheres africanas) ,que de lenços na cabeça e com os filhos suportados no dorso por lindas e garridas capulanas, transportavam latas de petróleo (5 litros) em desuso e bem lavadas, para a recolha nas pequenas poças de águas salobras deixadas pela debanda da maré, dos deliciosos moluscos bivalves. Todos estarão recordados, que nas manhãs domingueiras  os laurentinos tinham como hábito deslocarem-se à aquela aldeia, para comprarem peixe fresco; abundavam as corvinas, garupas e peixe-serra  vendidas a olho e as amêijoas, medidas em latas vazias de compotas sul africanas . Se as compras fossem avantajadas, havia sempre a hipótese de regatear o preço. Foi naquele recato piscatório, que muitos jovens do meu tempo passaram momentos agradáveis, pescando junto à ponte com canas de bambu e poucos metros de fio de nylon, com uma rolha a servir de bóia e o pequeno anzol armadilhado com minhoca, à espera que as pescadinhas mordessem o isco e  quase sempre se enchia o saco. Depois da pescaria nada melhor do que os sprints, em direção às águas quentes que se espraiavam ao longo das areias brancas, para sucessivos mergulhos. Para tornar mais original aquele cenário, a tranquilidade reinante a que não pareciam ficar alheias as pequenas embarcações de pesca, que em terra ou na água, esperavam o retorno à faina. Lembro-me que naquele espaço, existia a paragem do machimbombo da linha 29 que demandava à cidade, percorrendo um estradão de alcatrão fendido até se atingir o Bairro Ferroviário das Mahotas e de terra batida até ao excêntrico Bairro da Coop. São estes flashes de momentos felizes que vivi por aquelas paisagens quentes, onde a aldeia dos pescadores enlaçava entre as suas gentes e a natureza uma harmonia perfeita.

Manuel Terra   

terça-feira, 7 de junho de 2011

O semanário Tempo




Soube recentemente, que vai ser reeditado o semanário Tempo em forma de revista na capital moçambicana e de imediato chegam-me à caixa de recordações, imagens da sua publicação de outrora de capas coloridas e impressa em moderno offset, que causou furor naquele território, no início da década 70. Tinha a sua gráfica e redação na cave do imponente Prédio Invita com os seus vinte pisos, sito na Av. Afonso de Albuquerque(hoje Ahmed Sékon Touré) já muito próximo do cruzamento com a Av. Princesa Patrícia(hoje Salvador Allende) e com vista para a Mansão/Associação dos Velhos Colonos. Lembro-me do lançamento do semanário que foi apoiado por um grupo de accionistas e do corpo redatorial, que tinha como diretor adjunto Rui Cartaxana(já falecido) e com a colaboração de Mota Lopes, Areosa Pena, Migueis Júnior , Mia Couto entre outros jornalistas de uma geração de reconhecidos méritos e, dos repórteres de imagem Ricardo Rangel(já falecido) e de Kok Nam. Tinha como forma de toque o molde com que abordava questões relacionadas com a economia, investimentos, eventos sociais, culturais e desportivos, bem assim como artigos de opinião e a caixa de correio dos leitores. Com uma linha editorial ousada para a época, afinal vivia-se a propalada primavera marcelista, a Tempo aproveitando o ambiente político e social que fervilhava, enfrentou a censura existente contudo mais benevolente na  Pérola do Índico, incomodando o regime. Como seria de esperar o teor de informação suscitou a curiosidade de todos os que lá nasceram ou habitaram, a esgotarem-se muitas edições nas bancas como consequência do ávido interesse dos leitores que procuravam comprender melhor  a realidade do Império  português . Considerado por uns como sensacionalista e polémico e ,por outros como um órgão de comunicação  diferente e independente,  acabou no período pós-independência por se extinguir, presumivelmente por falta de sustentabilidade. Que os novos tempos constituam um desafio para os seus responsáveis, tendo o bom gosto de perseverar o título do semanário obrigando-me por instantes  a recuar a uma época da qual eu e muitos mais fomos assíduos leitores.

Manuel Terra

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bairro S. José

São sempre momentos de imenso prazer, imbuídos de grande sensibilidade referenciar espaços que representaram um ponto de encontro da minha juventude, com aquela Lourenço Marques de que todos falam com brilhante entusiasmo. É verdade que  a cidade era a expressão própria de um paraíso prometido que se estendia desde o núcleo central até às zonas periféricas,  dormitório de gente simples que muito cedo, ainda a noite celeste cobria a urbe, já se avistava de sorriso nos lábios a dirigir-se para as paragens dos machimbombos, procurando chegar bem rápido aos locais de emprego para garantir o pão nosso quotidiano. Eram exemplo disso os moradores do Bairro de S. José que nasceu nos primórdios do século XX, caraterizado  por casas típicas  térreas meias escondidas por árvores frondosas já com alguma longevidade. Por ali passava a Av. do Trabalho e de lá desembocavam saídas para a Matola, Bairro do Jardim , Vale do Influene , Choupal e o jovem Bairro de Benfica. Os primeiros habitantes do Bairro de S. José, criaram porventura por devoção ao Santo um vasto espaço  para ação eclesiástica mandando construir uma igreja  a preceito e uma missão católica para a difusão do ensino, por onde passaram milhares de alunos de todas as raças, com o lema de formarem homens que se tornaram amigos para sempre. Bem me lembro que ao lado do templo, se situava o campo de Futebol em terra batida, vedado com traves de madeira onde o Grupo Desportivo de S. José se treinava, no tempo em que se jogava por amor à camisola. Tratava-se de uma equipa popular que atuava no escalão secundário, do Campeonato Distrital. Aos domingos a mocidade irrequieta, com  grande aprazimento jogava futebol desde o romper da aurora até ao pôr do sol, regressando a casa ofegantes e a suar. Alguns deles vieram a fazer carreira em clubes portugueses, casos de Calton e Zeferino. Nos meados da década 60 foi inaugurado muito próximo das instalações da Missão, com pompa e circunstância o moderno Colégio D. Bosco dirigido por padres salesianos , que colocavam quase pelos modos a educação e o desporto no mesmo patamar, nutrindo pela prática do hóquei em patins um carinho muito especial. Criaram um ringue de patinagem e inscreveram o colégio nas provas federadas, gesto de incondicional apoio à modalidade. Dava gosto ver a organização daquele grupo, que desenhavam em campo rendadas jogadas de fazer furor junto dos simpatizantes e eram incondicionalmente na década 70, os dignos sucessores dos grandes hoquistas moçambicanos que 1958, deslumbraram Montreux. Ainda recordo da equipa do Colégio D.Bosco  os jovens promissores  Araújo, Afonso e o meu amigo Anselmo( Infelizmente já falecido). Tenho presente o Bairro de S. José pelos melhores motivos , onde contava com alguns amigos e não esqueço que os adolescentes, tinham como prática comum naquelas cálidas noites de verão sentarem-se nos muros das casas entoando músicas da moda, fazendo soltar das violas sons musicais que indiciavam vocações perdidas, em entretimentos que tardavam acabar. São estas memórias que fizeram parte de muitos dias da minha vida, que criaram laços de afeição aquela terra tropical. É natural que depois da separação, sempre assim aconteça.

Manuel Terra

quinta-feira, 24 de março de 2011

Bairro da Malhangalene





Amiúdas vezes, acabo por não resistir à ideia de abrir a janela do tempo vivido naquela cidade de culturas distintas, orgulho de quem lá nasceu ou um dia lá viveu.  A antiga Lourenço Marques deixou-nos testemunhos que têm muito a dizer e que ajudam a explicar o entusiasmo como muita gente a retratava. É bem verdade que nem só de cimento se construiu aquela imensa terra africana, que enquadrava no progresso e desenvolvimento a dinâmica e coragem dos seus habitantes. Daí o fascínio constante de uma paixão eterna que ninguém ousa interromper, pela forma intensa como aprendeu a amá-la. São estes sentimentos que nos tocam e que nos fazem relembrar fatos e lugares, que nos ficaram na retina. A sedução leva-me ao tempo da minha infância, quando petiz fui matriculado na Escola João Belo (hoje Filipe Samuel Magaia) maioritariamente frequentada por alunos oriundos do Bairro da Malhangalene, que aprendi  a admirar a mística dos seus moradores que dispersos por largos, ruas e travessas (Ostentavam o nome de regiões e cidades da Metrópole)  eram o exemplo do mais singelo bairrismo que presenciei, em que vizinhos  e amigos se uniam para tudo sequiosos de serem os melhores.  Bairro  caraterizado pelo sua malha urbanística  que raramente contemplava  prédios com mais de 3 andares e engalanada de imensas moradias contíguas , marginadas de lindos quintais e construídas a bom gosto. A zona começava por bem dizer no cruzamento da Av. Manuel de Arriaga (hoje Av. Karl Marx) com a Av. Caldas Xavier (hoje Av. Marien Ngouabi ) junto ao Cordeiro, uma famosa casa de pasto que servia água de Lisboa (nome que os africanos, por humor davam ao vinho) nétar sempre acompanhado por bons petiscos. Não muito distante, localizava-se as instalações do Grupo Desportivo da Malhangalene (hoje Clube Desportivo Estrela Vermelha, infelizmente em processo de insolvíção) filial do F.C do Porto, fundado  por gente simples e humilde sempre pronta a contribuir para a agremiação que prestigiou o desporto moçambicano. Possuía um excelente pavilhão coberto, campo polivalente ao ar livre e o campo de Futebol.  Lembro-me do saudoso Adrião, pai do Fernando e do José Adrião que carinhosamente ensinava à miudagem os segredos da modalidade, da grande equipa de Basquetebol do G.D.M por sinal  venceu  o Campeonato Nacional em 1974. Quem já não se recorda  do Senhor Teixeira, apaniguado dos sete costados que gritava a plenos pulmões o nome do “ Malhanga “. Um verdadeiro ninho de grandes hoquistas e basquetebolistas, que se tornaram vedetas além-fronteiras. Ficou célebre também a Copa Malhanga, em futebol de salão, os torneios internacionais de Luta-livre que contagiavam as bancadas e as tardes dançantes que fizeram furor na época, onde as melodias em voga animavam a juventude efusiva e romântica da  minha geração.  O bairro esboçava-se até vasto espaço da Av. Augusto Castilho (hoje Av. Vladimir  Lénine) e já próximo da Av. Massano de Amorim (hoje Av. Karl Marx) pontificava a Igreja Nossa Senhora das Vitórias de perfil arquitetónico distinto a que os moradores demonstravam grande devoção. Recordo-me muito bem da antiga igreja que se situava na Rua Heróis de Marracuene (hoje Rua da Resistência) junto a um pequeno jardim, onde terminava o percurso do machimbombo da linha 16. São estas belas imagens que me emergem ao pensamento, numa reverente invasão de recordações que marcaram um tempo.

Manuel Terra

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Ponta do Ouro



Guiado pela instintiva paixão de relembrar os velhos tempos vividos em LM, o eco do meu pensamento esbate-se na paradisíaca  praia da Ponta do Ouro, localizada no Sul e distava a 120Km da capital fazendo fronteira com a vizinha África do Sul através de um pequeno posto, que ligava à estrada de Kusi Bay. Há muito tempo que ponderava visitar aquelas paragens, um autêntico paraíso marinho. Decorria o mês de Dezembro de 1974 e tudo ficou acertado no Café Chilena que ficava na Av. 24 de Julho entre o Cinema S.Miguel (hoje Assembleia da República) e as instalações da Associação Cultural Africana. Era a Zona do Bairro da Malanga.  Os amigos Júlio e o Zé Carlos conviventes daquele espaço, aceitaram o desafio e combinamos a viagem que podia ser via Boane ou então em alternativa utilizar o recém inaugurado ferry-boat que efectuava  o transporte fluvial de automóveis e passageiros para a Catembe. Optamos pela segunda via e sexta-feira ao cair da tarde já com as nuvens a avermelharem o horizonte, embarcamos levando as bagagens no Austin do Júlio. Depois de meia hora de navegação aportamos à outra margem com a noite silenciosa a prometer companhia. Esperávamo-nos uma pequena aventura através de uma estrada de terra batida, em alguns casos com contornos de picada, salpicada de pó e ladeada de capim que encobria muitas palhotas rodeadas de inúmeras micaias(árvore tradicional africana com muitos picos) que se adaptavam a solos secos  e a marcha foi continuando com algumas dificuldades, porque os buracos abundavam. A nossa juventude ajudava de sobremaneira a espantar o sono e a fadiga. Fizemos depois de atravessar a povoação da Bela Vista, uma pausa na localidade de Salamanga para aconchegar o estômago. Paramos junto a uma cantina (nome como era conhecida uma pequena mercearia) e os proprietários lá nos conseguiram servir uma salada de conservas,  com pão duro  confeccionado com fermento duvidoso e umas cervejas. Reiniciado o percurso atingimos a Praia de Malongane sobejamente conhecida pelas suas dunas e vegetação, para pouco depois chegarmos ao destino, após quase quatro horas a rolar. Rapidamente alugamos um bungalow para o merecido descanso. Como era deveras agradável ouvir as ondas a enrolar na areia, numa cumplicidade apaixonante. Na manhã de sábado era já  visível a grande afluência de turistas, especialmente sul africanos transportando os seus iates e lanchas rápidas para pequenos passeios e para a prática da caça submarina. Era vê-los a envergarem os escafandros e armas equipadas com arpões e zarparem  para o largo a  procurarem as espécies que abundavam nas profundidades do mar( garoupas, barracudas e tubarões medianos). Para a tarde ficou planeada a nossa pescaria, altura em que a maré começava a encher e parece que ainda estou a ver o Zé Carlos a fazer um excelente lançamento de linha a partir do limite do areal e de imediato a rejubilar com o curvar da cana; sinal de que o peixe já tinha mordido o isco. Foi com muita paciência e arte que depois de algum tempo, sempre rodeado de gente curiosa, que arrancou das águas um belo exemplar de xaréu com mais de 6kg, que uns dias depois foi cozinhado pelas mãos hábeis da mãe do Zé Carlos e partilhado com os amigos. Até o sol  raiar ainda capturamos algumas enchovas, que predominavam naquela zona marítima. A manhã de domingo foi reservada para umas caminhadas pelas areias finas e uns mergulhos e braçadas nas suas transparentes águas. Cá fora estava um calor abrasador. Era já tempo de arrumar mochilas e canas e ir almoçar ao restaurante que ficava no terminal do paredão.  O relógio dávamo-nos conta que estava na hora do regresso e eis-nos de novo de retorno à aventura para chegarmos a tempo  ao Cais da Catembe. Foi sem dúvida um fim de semana em grande. Como é agradável recordar a rara beleza daquelas belas paisagens, onde o sol brilhante da cor do ouro, parece tal como o arco-íris unir o céu ao paraíso térreo . Sou  dos que porfiam que a Ponta do Ouro, tem mais encanto na hora da partida. 

Manuel Terra

domingo, 9 de janeiro de 2011

Os domingos de Verão na praia do Miramar


Na minha fonte de recordações, continuam a desfilar inesgotáveis paixões de outrora que resultam da forma intensa, como se vivia aquele tempo. Perco-me hoje pela linda praia do Miramar, vaidosa das areias brancas banhadas por águas calorosas e calmas, que faziam as delícias dos banhistas laurentinos e de milhares de turistas sul-africanos que acampavam no bem tratado Parque de Campismo Municipal nas proximidades do Restaurante e Snack bar  Miramar. Era vê-los chegar em auto caravanas ou potentes automóveis que rebocavam  confortáveis roulottes.  Gente simpática recebida de braços abertos, sobretudo pelos jovens da minha idade que se deslumbravam com o desfile sempre constante das elegantíssimas  “bifas” presenteadas por uns piropos românticos, rematados em frases feitas de um inglês prático  a que as moças  correspondiam com sorrisos matreiros. O restaurante com esplanada estava sempre azafamado de frequentadores de muitas culturas atraídos pelos bons petiscos e pela qualidades das boas cervejas moçambicanas e das suas mesas assistia-se a um salutar convívio e entre risadas e olhares matreiros , no ar esvaiam-se  novelos de fumo que descontraídos tabagistas expeliam como que rendidos aos ideais das principais marcas de cigarros. Depois era só descer as escadas para a praia arenosa e caminhar em pezinhos de lã, para não lançar areia para cima dos muitos veraneantes que sobre esteiras ou toalhas procuravam a radiação dos raios ultravioletas para o desejado bronze. Nas águas sucediam-se  os mergulhos  e os espetáculos  de ski naútico. Recordo os dois longos paredões, onde os pescadores desportivos montavam as suas canas de pesca e os enormes penedos  para proteção  do betão  eram também refúgio de caranguejos de várias espécies. Sempre que a maré vazava achava-se o espaço ideal para umas partidas amistosas de futebol de praia, pretexto para o almoço já agendado. E  porque não evocar o senhor Vedor, homem de cinquenta e muitos anos que percorria toda a zona de praia na área mais propícia dando toques sucessivos com bola alternando os pés e sempre acompanhado por um rol de curiosos que testemunhavam as suas habilidades. Era pai do Vedor que jogava no 1º de Maio e tio de  Magalhães que alinhava no Sporting. Na parte sobranceira da Praia do Miramar, estendia-se entre o Restaurante Miramar e o Dragão de Ouro ,hoje já desaparecido  (hotel Holiday) um largo passadiço equipado de dois longos balneários com alpendres e bancos de cimento, sempre percorrido pelos que apreciavam as caminhadas. O antigo restaurante chinês Dragão de Ouro era o local recomendado  dada a qualidade da sua gastronomia, sendo as refeições servidas com especial esmero. Também por lá se organizavam as passagens de fim de ano, com os laurentinos a festejarem o seguinte na praia do Miramar. São estas marcas do passado que me conseguiram cativar das quais não consigo  desprender ,vividas em tempo real.
Manuel Terra

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Teatro Gil Vicente


O dia amanheceu frio e com chuva, cheirando a Outono. Valpaços cidade transmontana onde nasci e habito, integrada na região da Terra Quente parece não fazer jus ao nome que ostenta. Os persistentes arrufos do vento vão fustigando as árvores, soltando as folhas coloridas numa espécie de bailado melancólico, espalhando-as pelo chão. Para amarfanhar a espertina da manhã cinzenta, nada melhor do que exercitar o pensamento e aproveitar a boleia do tempo até às terras quentes de Moçambique. Dou comigo a pensar como era agradável ir à matinée em dias de chuva e fixo o olhar no belo Teatro Gil Vicente. Quem lá esteve, se bem se lembra situava-se na Av. D. Luíz I (hoje Samora Machel) mesmo defronte do Jardim Botânico Vasco da Gama (hoje Jardim Tunduru) e paredes meias com o Prédio Lusitânia. Totalmente recuperado dos escombros, após um incêndio que o destruiu na década 30, o edifício encerrava dentro de si a magia e a arte dos espetáculos. Pelo seu palco, passaram orquestras sinfónicas, companhias de teatro, artistas conceituados, revista à portuguesa e grandes películas cinematográficas. Recordo com saudade os filmes que por lá se estrearam classificados para maiores de 12 anos, criavam a ideia do estatuto de pequenos adultos e eram o regalo dos nossos sentidos, desafiando a irreverência e fantasia do público mais jovem. Finda a(s) matinée(s) os que não tinham os seus progenitores à espera no carrinho, aproveitavam para uma pequena volta até ao parque botânico e no virar da esquina os últimos trocos na algibeira ainda chegavam para ir ao Salão da Cooperativa dos Criadores de Gado, beber um chocoleite delicioso  e para uma nata recheada. O regresso a casa do pequeno grupo do meu bairro, fazia-se antes do anoitecer (pudera) apanhando o machimbombo na paragem junto à Casa da Sorte no cruzamento da Av. da República (hoje 25 de Setembro) com a Av. Manuel de Arriaga (hoje Karl Marx). A linha 13 e 15 dos S.M.V com destino ao Aeroporto de Mavalane, levávamo-nos ao Bairro da Munhuana. Depois era a hora do recolher obrigatório. Assim se sentiam felizes os adolescentes do meu tempo, que deram rosto a uma geração que já vai longa mas capaz de olhar para o passado com orgulho da época que viveu.

Manuel Terra

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A beleza da Polana


Por muito que o tempo tente desgastar a saudade, a persistência da sensibilidade “conduz-me” até lá outra vez para não deixar esmorecer as emoções e paixões que não consigo esquecer. O fascínio das evocações traz-me a lembrança da magnificente beleza da Polana. Poderá dizer-se que começava no eixo da Av. 24 de Julho com a Av. António Enes(hoje Julius Nyerere) até ao sumtuoso Bairro de Sommerschield. Uma artéria caraterizada por duas longas faixas de rodagem, pinceladas pela tonalidade rubra das acácias e jacarandás, que permitiam aos transeuntes caminhar protegidos do sol inclemente. Era a chamada parte alta da cidade  onde os edifícios de altura considerável, predominavam. No cruzamento com Av. Massano de Amorim (hoje Mao Tse Tung) muito próximo da paragem do machimbombo municipal da carreira 5, situava-se o Hotel Polana uma das melhores unidades hoteleiras de África Austral, inaugurado em 1922 de invejável traça colonial, com um parque de estacionamento embelezado por um pequeno palmar e canteiros tratados a gosto. Um verdadeiro 5 estrelas conhecido sobejamente além fronteiras. Curiosamente ainda eram visíveis no asfalto daquela via os carris metálicos que serviram os elétricos, que a cidade conhecera até 1929, com paragem obrigatória frente ao hotel. Na retaguarda a partir das suas piscinas obtinha-se uma vista panorâmica que se estendia desde o Miradouro, Rampa do Caracol e a antiga Rua Trigo de Morais que ligava a Estrada da Marginal às praias arenosas e esbranquiçadas compreendidas entre o Restaurante o Dragão de Ouro( hoje já demolido) que deu lugar ao Hotel Holiday e ao Miramar(totalmente transformado). Mas a área da Polana tinha mais referências, como o Restaurante Sheik(que ricos repastos) onde se podia jantar ao som de uma orquestra . As refeições tinham quase sempre marcação antecipada. Nas suas traseiras descortinava-se o Parque José Cabral (hoje Parque dos Continuadores) uma enorme área verde arborizada, onde nas suas pistas se realizavam as provas de Atletismo e por lá passaram nomes sonantes da modalidade. No final de linha avistava-se o Prédio Bucellato encravado no excêntrico Bairro de Sommerschield, um  luxuoso complexo de vivendas e mansões, que faziam o sonho dos seus moradores. Também não poderia deixar de destacar A Igreja de Santo António da Polana inserida numa superfície verdejante, vincada por um estilo de arquitetura moderna que ganhou o epitrope de espremedor de laranja, dada a sua configuração. O seu interior era iluminado durante o dia pelos efeitos especiais dos raios solares que extravasavam os vitrais coloridos do templo. Tive a felicidade de conhecer aquele belo espaço,onde as cerimónias religiosas contagiavam os fieis. São estas imagens ainda muito vivas, de uma cidade que não consigo esquecer, que me levam a constantes incursões ao passado numa espécie de desafio ao tempo e memórias.

Manuel Terra

sábado, 11 de setembro de 2010

O Campo do Ferroviário


Nesta intromissão persistente de evocar fatos passados, o presente por momentos torna-se submisso às recordações de outrora, que de uma forma funcional nos conduz a experiências vividas e partilhadas com todos aqueles que as puderam testemunhar. Chegou-me recentemente a informação da visível degradação das instalações desportivas do Clube Ferroviário de Moçambique (havia mais de 23 delegações na então província) que na capital se situavam no cruzamento da Av. da República (hoje 25 de Setembro) com a Av. Luciano Cordeiro (hoje Alberto Luthuli) onde funcionava a sede social da coletividade. Sem dúvida que se tratava do maior clube eclético de Moçambique. Na retaguarda podia-se observar a sua piscina e um excelente ringue ao ar livre referenciado para a prática do hóquei em patins e basquetebol. Recordo com alguma emoção aquelas tardes cálidas de muitos sábados à tarde, onde se disputava o Campeonato distrital de Juvenis e Juniores da bola ao cesto, porque lá joguei algumas vezes em representação do Grupo Desportivo de Lourenço Marques. Também ali treinaram e atuaram algumas vezes, os seniores do CFVM que se tornaram os primeiros campeões de Moçambique em Basquetebol após o 25 de Abril e que no final da temporada, a sua grande maioria viajou para Portugal. Uns metros mais acima e na mesma artéria, na Av. Luciano Cordeiro (Alberto Luthuli) mesmo defronte dos restaurantes Peninsular e Coimbra (onde se preparavam dos melhores frangos à cafreal) foi construído o Campo de Futebol, denominado Estádio Eng. Freitas e Costa verdadeiro orgulho dos ferroviários ( como eram conhecidos os funcionários dos Caminhos de Ferro) que contribuíram de forma decisiva para a sua implantação. Inaugurado nos princípios da década 40, foi considerado como um dos mais belos campos de futebol do então chamado espaço português. Dotado de uma bela bancada central toda construída em pedra, emoldurada por uma pala com ligeira curvatura em cimento armado, apetrechada de camarotes e equipado com iluminação artificial. Sob o seu largo escadario havia treinos de ginástica desportiva e halterofilismo. A este rol de lembranças neste espaço e encontrando-me no seu interior como colaborador do jornal Diário-secção desportiva, consegui para a reportagem a presença do mítico treinador Jimmy Hagan que se encontrava nas bancadas a observar um jogo de juniores, numa partida arduamente disputada por muitos jovens oriundos dos bairros de caniço e que depois ingressavam nas equipas federadas. Segundo se constava, o mestre britânico estaria ali em missão de “espionagem” com dois nomes em agenda. Depois foi só chamar o fotógrafo de serviço para a foto da praxe. Decorria o ano de 1972, e o SL e Benfica encontrava-se em LM, para a disputa do Troféu TAP. Certamente que o campo do Ferroviário, foi palco de grandes sonhos para a generalidade de muitos jovens talentosos que procuravam rumar à Metrópole  à procura da fama e glória.  Era pois verdade que se dizia em Moçambique, sempre que nascia um jovem se estava perante um potencial desportista.

Manuel Terra

sábado, 19 de junho de 2010

A missa da juventude



Caminhando pela longa ponte que liga a margem do passado à do presente, a corrente das memórias arrasta-me para os inadiáveis encontros com ciclos de vida já percorridos. Recentemente tive conhecimento da passagem do 1º centenário da inauguração da antiga Igreja de Santa Ana da Munhuana, um pequeno templo religioso que contou com a presença do Príncipe D. Luís, que ainda hoje existe enquadrado na área do Colégio, que servia também para o ensino do catolicismo. Ficava situada na Av. Dr. J. Serrão (hoje Av. Emília Daússe). Contudo a minha evocação reporta-se à moderna igreja, construída na década 60 de conceção moderna e bastante ampla, localizada no cruzamento da Av. Latino Coelho (hoje Av.Maguiguane) com a Av. Paiva de Andrade (hoje Av.Mohamed Siade Barre) já muito próxima do Bairro do Alto-Maé. Outrora toda aquela zona era designada por Bairro da Mafalala e segundo quanto pude apurar, naquele terreno de terra solta onde se ergueu o santuário, lá se jogaram peladinhas animadas com o Eusébio, Vicente, Hilário e outras vedetas moçambicanas. A Igreja da Munhuana, nesse tempo estava confiada ao cónego Henrike, religioso holandês que coordenava a Ordem da qual faziam parte, muitos curas oriundos do país das tulipas. Recordo o velho monge que já contava muitos invernos, de barbas longas branqueadas pela idade, que cuidava ao pormenor do jardim envolvente. Tudo seria normal, se não fora um jovem padre que ditou que a missa dominicana às 8 horas e 30 minutos, fosse consagrada à juventude com a particularidade de ser cantada, permitindo aos jovens interpretarem em coro; Jesus Cristo Super-Star e a Montanha, acompanhados de conjunto musical bem afinado, os grandes êxitos do cançonetista Roberto Carlos, um grande ídolo da nossa geração. Eram centenas de jovens, que davam corda aos sapatos para estarem presentes na cerimónia. O espaço já se tornava exíguo para tantos devotos, fato que suscitou alguma polémica e incomodou a polícia do regime, independentemente de uma restrita liberdade, concedida ao clero. A oportuna intervenção do Arcebispo de LM, D. Custódio Alvim Pereira fez saber, que não via nenhuma sombra de pecado nas evocações, consideradas um hino e o sacerdote aliviado do rótulo de subversor estrangeiro. E foi embalado por esse movimento, que tive o ensejo de ouvir por diversas vezes na mesma igreja, a voz inconfundível do grande tenor Carlos Guilherme e grandes concertos da Orquestra Cívica e Coral Moçambicano. Foram momentos de gala, que retenho para a posteridade, assim como muitos que os puderam testemunhar naquele temp(l)o.
Manuel Terra

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O ensino das artes


A propósito de um e-mail que recebi, anunciando o 3º encontro nacional dos antigos alunos, professores e funcionários da Ex-Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque (hoje 1º de Maio), o permanente fascínio da evocação de velhos tempos de LM desvia-me a atenção para o imponente edifício(antigo Palácio Maçónico) que se distinguia pelos seus esbeltos pilares bem trabalhados, janelas em círculo e uma vasta escadaria que caraterizavam a sua fachada, virada para a Av. 24 de Julho, junto ao cruzamento com a Av. Augusto Castilho (hoje Vladimir Lenin) que a ladeava.  Era um símbolo na formação técnica das muitas gerações, que frequentaram aquelas instalações. Como é salutar recordar o estabelecimento de ensino, que preparou milhares de jovens para o mercado de trabalho através de várias áreas de especialização. Mais vocacionado para alunos do sexo masculino, visto ser reduzido o grupo feminino que frequentavam o curso de Laboratório de Química e Belas Artes. Certamente são muitos os que ainda recordam as suas longas oficinas, onde os jovens envergando fatos-macacos de caqui azul se preparavam para a vida e se tornaram grandes profissionais que hoje labutam nos quatro cantos do mundo como artistas referenciados. Recuperando esse trajeto de vida, lembro-me do velhinho campo polivalente em cimento, mesmo muito próximo da secretaria e do gabinete do Diretor. Muitas partidas de futebol de salão, basquetebol e alguns jogos de hóquei em patins eram observadas do alto muro, coberto de mangueiras de grande porte implantadas na superfície contígua da Missão da Juventude Operária Católica. No patamar cimeiro situavam-se os balneários, o refeitório e a cantina escolar. Ali ao lado o Ginásio, também conhecido pelo “galinheiro” e o seu pátio fronteiriço, onde se praticava aeromodelismo e o ensaio de ruidosos Kartings, montados nas oficinas de mecânica. No Verão, nomeadamente aos sábados à noite em sessões ao ar livre, servia também para a projeção de filmes. Subindo as escadas atingia-se o corpo central da estrutura, posicionada para a Av. Afonso de Albuquerque (hoje Ahmed  Sekou Touré)  onde se encontrava o portão mais utilizado por formadores e formandos. Cá fora num terreno baldio, jogava-se ao paulito, muito em voga na época. Não poderia terminar estas linhas, sem uma palavra de gratidão e eterna saudade a todo o corpo docente que já partiu para a viagem sem tempo, pelo testemunho que nos deixaram, relembrar funcionários e colegas que também já não se encontram entre nós e o grande apreço e consideração aos que ainda felizmente nos fazem companhia; um abraço fraterno a todos esses camaradas de turma, agora de barriguinhas salientes e cabelos brancos ou de visível calvície, mas sempre jovens de espírito. A mística da malta da Indústria, segue dentro de momentos em mais uma confraternização, para mais tarde recordar.

Manuel Terra

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Restaurante Piri-Piri


Na relembrança remanescente, de recordar um paraíso que recuso esquecer, fico com a sensação que por momentos o passado e o presente se resumem num só tempo, fruto do mórbido vício de desafiar as memórias sempre que o ensejo o proporciona. O meu flash de hoje suporta a imagem do inesquecível Restaurante o Piri-Piri, que se situava no cruzamento da  Av. 24 de Julho com a António Enes(Julis Nyerere) na zona da Polana, a mais excêntrica da cidade. Referenciado pelos seus atributos gastronómicos, o Piri-Piri (hoje com um novo visual) aos domingos encontrava-se sempre superlotado e só com muita dificuldade se achava uma mesa vazia. Todos os que se consideravam uns bons garfos, tinham certamente no seu currículo aquele estabelecimento de restauração. Partilhei, assim como muitos laurentinos dos seus divinais repastos em festas ou convívios, onde se comia a melhor galinha à cafreal, o bife à moda da casa ou os apetecíveis camarões grelhados no carvão. Refeições sempre acompanhadas de cerveja Laurentina ou 2M, beberricadas apressadamente para abafar o ardor picante, que os lábios não suportavam. Para facilitar a digestão do banquete, nada melhor do que atravessar a longa artéria que dava acesso à zona das praias e caminhar pelo magnifico Miradouro sempre belo e apaixonante, ornamentado de eternas trepadeiras floridas enroladas em estruturas de madeira, que se estendiam aos seus belos varandins avançados , construídos em semicírculos. Aquele pulmão verde, era um ótimo refúgio para o intenso calor que se fazia sentir e onde se respirava tranquilidade e bem estar.Do seu mirante podia-se contemplar a longitude do mar. Como era necessário gastar o tempo,  o percurso  estendia-se até à rampa do Caracol, palco de memoráveis provas de automóvel  e ciclismo. No regresso, a passagem pelo Pub a Canoa para relaxar e beber um whisky ao som de uma musica em tom baixo e agradável ao ouvido. Como é gratificante saber que locais tão emblemáticos como estes, resistiram à erosão  dos ventos humanos e continuam firmes nos lugares de sempre. São de fato todas estas visões do passado, que me recordam que um dia tive a felicidade de sentir outra forma de vida.

Manuel Terra

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Alto-Maé



Na persecução mordaz da nostalgia dos bons velhos tempos, assalta-me a memória um spot publicitário do Rádio Clube de Moçambique que propalava: O Ponto Final é, onde acaba a Central (outra zona da cidade) e começa o Alto-Maé. Sem qualquer alusão gramatical, tratava-se de uma afamada marisqueira localizada no cruzamento da Av. Pinheiro Chagas (Eduardo Mondlane) com a Av. General Machado (Guerra Popular) onde os crustáceos eram cozinhados com mestria e regados com cerveja de palato requintado ou do melhor vinho verde importado. Junto à sua entrada, o olhar espraiava-se pela longa artéria de três faixas de rodagem até ao buliçoso bairro do Alto-Maé, zona de transição das áreas suburbanas para a urbe de cimento. Era um verdadeiro marco no dia a dia de LM, dormitório de gente simples, trabalhadora e de sorriso nos lábios. Por algum tempo, os meus pais lá residiram, junto  à Casa Bem-Fica, mesmo defronte de um dos mais antigos estabelecimentos de modas, a Casa Fabião (hoje uma dependência bancária). Naquela linha onde fervilhava o comércio, em que tudo se vendia a preços mais acessíveis, crescia a azáfama de um formigueiro humano aparentemente sem destino, mas que rapidamente se descortinava nos mais diversos estabelecimentos e repartições. Gente multicor, que se cruzava ao virar de cada esquina e se movia ao ritmo que aquela terra reclamava. A maioria dos prédios mais altos, apresentavam nas alas laterais, a mais variada publicidade projetada, de inteiro agrado dos seus moradores. Nos seus baixos comerciais, quem já não se lembra da Saratoga, Papelaria Folques, Foto Coimbra desse grande profissional Armindo Afonso, do Cinema Infante (Charlot), passando pelo Restaurante 2024 (ricas bifanas), Pastelaria Paris, as instalações do B.N.U e da escola primária do bairro. Afinal nada se perdeu, apenas tudo se transformou. O Restaurante Imperial que eu frequentei em comemorações festivas de amigos, era conhecido pelo seu arroz branco acompanhado de longos lagostins, grelhados no melhor carvão do interior e pincelados de um molho especial. Como é agradável citar o Restaurante o Leão d`Ouro que se orgulhava de ser o melhor em todos os pratos onde entrasse o fiel amigo. Na sua esplanada encontravam-se instaladas colunas de som, que nos proporcionavam ouvir aos domingos os relatos de futebol, difundidos pela Emissora Nacional, com os golos do Eusébio a serem festejados efusivamente. No término do bairro, ficava o edifício dos correios e no virar para o Largo Albasini o carismático Bazar Rajá, comércio hindu onde vendedores de cofiós na cabeça e mulheres trajando vestes de sari, excediam-se na simpatia acrescentando à venda dos produtos, um “saguate”(pequena lembrança) na sua tradicional sagacidade e arte de bem vender. Era assim o Alto-Maé de outrora, que encantou gerações do meu tempo e que certamente residirá no imaginário de todos aqueles, que nunca puderam voltar.
Manuel Terra

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Assalto às memórias !



 


Amanheceu lindo, em Maputo, o dia 9 de Agosto do passado 2009. Era um domingo especial, esse dia, diferente de tantos domingos. Para ele  tinha eu reservado o início do grande assalto às memórias que o tempo resguardou intactas, apesar dos 35 anos já decorridos.
Quando acordei e dei comigo deitado numa cama de um Hotel no centro da cidade, saltei como que impulsionado por uma mola, e corri para a varanda disposto a enfrentar o impacto visual que só (digo eu) Maputo proporciona. Abri e fechei os olhos várias vezes. Aquilo que foi um sonho alimentado por um desejo crescente em o tornar realidade, estava a acontecer. É difícil, senão impossível, descrever por palavras as emoções que nesse momento se apoderaram de mim.
Socorri-me da camera fotográfica para perpetuar as imagens do meu contentamento. Não desliguei a máquina sem antes lhe prometer para esse dia, afincado trabalho sem folgas para descanso.
Nessa manhã o duche foi mais curto que o costume, mas a ânsia de pôr os pés a caminho do “fundo” de um sonho, impôs-se.
No pequeno almoço, dei o papel principal à papaia acompanhada de um delicioso sumo de goiaba. Entre cada trago, acendiam-se as luzes da memória e ficavam a descoberto episódios que já tinham sido colocados no arquivo morto, por ordem da mente.
Uma vez chegado à porta de saída (que também era a de entrada), perfilei-me em frente ao belo edifício da Sé Catedral e enquanto olhava para a escadaria de acesso à mesma, descortinava em mim, um miúdo em traje domingueiro, pela mão do seu pai, ao lado do mano mais velho, a caminho da habitual cerimónia eclesiástica. Contrariado sim, mas obediente.
Comecei então a cumprir o que tinha prometido à camera fotográfica. E ia na minha segunda fotografia, quando um jovem taxista vem ter comigo, alertando-me para o risco de estar a enquadrar um edifício que era do estado. E isso é crime que a polícia não deixa escapar adiantou o mesmo. Expliquei-lhe que estava a fazer uma fotografia panorâmica e que esse edifício não merecia qualquer destaque. Mas acabei por “meter a viola ao saco”, ou seja, a máquina na sua bolsa e agradeci ao jovem o alerta que me deu.
Ainda com tanto para contar acerca desse dia fantástico e já o texto vai demasiado alargado, recomendando um segundo capítulo para próxima oportunidade.
Entretanto, sejam felizes, por favor !


Aurélio Terra

domingo, 4 de abril de 2010

Os encantos da Marginal



Continuando as caminhadas em busca de um tempo vivido, a linha do horizonte deixa-me transparecer imagens das belas tardes domingueiras que passei, assim como muitos citadinos na extensa Marginal, pejada de altivas palmeiras e de bancos que se estendia desde o imponente edifício da Fazenda Pública (hoje Ministério das Finanças) até à Praia do Miramar, em passeio de cimento desenhado aos quadrados. Dali podia-se observar a vastidão da Baía do Espírito Santo, das águas calmas que suavemente beijavam a sua muralha, de forma quase romântica. Aquela Marginal sempre povoada de passeantes, que faziam um compasso de espera quase todas as vezes que um pescador desportivo, acelerava a alavanca do carreto da cana de pesca trazendo como troféu, um exemplar de peixe-serra ou mesmo uma corvina. Do lado de lá avistava-se a Vila da Catembe, com a sua linda praia aos pés. Ainda antes do meu regresso, foi inaugurado o cais do ferry boat que fazia a ligação para a outra margem. Defronte da Marginal situava-se o afamado Restaurante Zambi, sendo o seu salão de festas referenciado por bailes sem conta, abrilhantados  pelos Nigth-Stars ou o AEC. Quantos jovens e adultos não recordarão esses ritmos? Na explanada, entre umas cervejas e petiscos, sentia-se o agradável sossego de um convite à meditação. No pinheiral junto à casa do Minho, famílias e amigos resguardando-se da canícula, consolavam o estômago em animadas merendas. Nos terrenos subjacentes erguiam-se as instalações da FACIM (Feira Agro-Comercial- Industrial de Moçambique) visionada por milhares de visitantes. O seu interior ostentava pavilhões dos quatro cantos do mundo, gente que procurava mercado para os seus produtos. Já ao cair da tarde, um hábito criado era a passagem pelo quiosque dos gelados, junto à Rotunda Luminosa e próxima do Clube Naval, para se saborear um delicioso sorvete de baunilha ou morango. O passeio só viria a terminar, passando pela verdejante zona de eucaliptos, que envolviam as instalações do Ginásio local. Tinham de facto fama, aqueles memoráveis passeios que caracterizaram de uma forma muito especial, a vida quotidiana daquela época.

Manuel Terra

sexta-feira, 26 de março de 2010

De novo, "Retornado"




Naquela manhã do dia 8 de Agosto do ano de 2009, mal reparava no que acontecia à minha volta. Toda a minha atenção se concentrava no meu relógio de pulso. Tentava, em vão, empurrar com os olhos da alma, os ponteiros dessa máquina do tempo. Ansiosamente, aguardava na sala de embarque do Aeroporto de Lisboa, a chamada dos passageiros para o voo que me levaria, 35 anos depois, à capital das minhas memórias. Já tinha acertado a hora, pelo fuso horário de Moçambique.Com este acto, impulsivo, sentia-me já com um pé na cidade de Maputo.
Há esperas que parecem durar uma eternidade. Dez horas e trinta minutos separavam-me do alvo do meu desejo.
Uma vez no ar, envolvi-me  muita vezes com as minhas emoções. Cheguei a duvidar que conseguisse sentir-me turista naquelas férias. Pensei que este regresso ao passado iria ignorar a razão para que tudo ficasse por conta do coração. À medida que me aproximava dessa pérola do Índico, as batidas cardíacas aceleravam a um ritmo preocupante. Vi-me obrigado a fazer algumas “fugas” à emoção para reencontrar o melhor equilíbrio possível.
Já em voo descendente, abandonei o coração à sua sorte. No avião, alguns “colegas” de voo, denotavam a mesma ansiedade. Cruzávamos  o  olhar   e partilhávamos  a emoção sem qualquer suspiro. O momento era de silêncio. Os rostos contraiam-se, os olhos cerravam-se amiudadamente.
O cinto de segurança, teimosamente, recusava-se a fazer o encaixe, entregue que estava ao tremular das mãos. O assento parecia demasiado  pequeno para tanta agitação.
Naquele momento em que o avião tocou o solo do aeroporto de Maputo, restabeleceu-se o cordão umbilical que me tinha ligado àquela terra, há tantos anos.
Enquanto descia as escadas do avião, os pulmões deliciavam-se com aquele ar Africano.
A espera pela entrega das malas, foi mais demorada que o habitual, mas uma avaria no tapete por onde estas são entregues, assim o determinou. Não me perturbou essa demora, pois estava ainda a tragar, deliciado, o cheiro, as cores, as formas… daquele pequeno espaço de recepção ao viajante. Em qualquer outro lugar do mundo, apontaria a dedo as carências que esse espaço revelava, mas ali, os meus olhos só “viam” o que a alma queria. Não me sentia um viajante qualquer. Era, de novo, um “Retornado”, ainda que essa condição tivesse os dias contados.
Na posse das malas, dei a partida para o assalto às memórias.

Aurélio Terra

quinta-feira, 11 de março de 2010

A baixa citadina


A cada dia que passa, mais distante pareço ficar das minhas vivências que me fogem como um amor perdido. Resisto e remexo o passado e nas poeira das memórias vislumbro  recordações da antiga  Lourenço Marques. Tento rever  o cruzamento da Av. da República (25 de Setembro) com a Av. D. Luis(Samora Machel) que servia de modo ímpar o núcleo comercial da baixa citadina, famosa pela referência das inúmeras lojas, escritórios, restauração e vendedores de artesanato. Naquela cidade, tudo crescia a um ritmo alucinante. Depois da saída do trabalho, todos os caminhos pareciam convergir para as artérias da baixa. Era considerada a hora de ponta e o semáforo ignorado, pela presença do polícia sinaleiro que do alto da sua  peanha   num ritual de apitadelas e braçadas, dava a sensação de arbitrar os destinos de peões e automobilistas , que por ali passavam. Os largos passeios estavam superpovoados de transeuntes que pouca importância davam ao tempo. O Café Scala (hoje descaraterizado), Continental(atualmente encerrado) e o Djambú  eram preciosos testemunhos de uma época áurea, com as suas esplanadas sempre a abarrotar de clientes habituais, que em momentos de relaxe entre um café e uma cerveja, soltavam sílabas esfumadas entre dois ou três cigarros queimados. Era nessa área comercial que se situava os Armazéns John Orr’s afamados pela importância sedutora e sensual, das modas europeias. Muito próximo a Casa Coimbra era também um marco na venda de vestuário. Defronte  do Mercado Municipal, localizava-se a Casa Elefante que vendia as mais lindas capulanas de cores vivas e garridas. Da arcada do Prédio Nauticus, soava a musica yé yé  de discos vinil, difundida pela Discoteca(nada de confusões) Poliarte que vendia  também livros e obras de arte. Lembram-me também as matinés de fins de semana, no Teatro Scala e no Cinema Avenida, com preços especiais para estudantes. No final da baixa, em terrenos térreos instalava-se o Luna Parque que fazia a felicidade dos petizes e a distração dos adultos no mundo das diversões. Quando o sol se despedia dos laurentinos, disparavam os deslumbrantes néons publicitários instalados em tudo que era sítio, tornando a noite mais mágica e atraente. São estas imagens da outra face do tempo, que permanecerão infinitamente no subconsciente da imensa gente que viveu e continua a amar aquela terra.

Manuel Terra

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Recargas

 

Depois de uma peregrinação de duas horas, a pé, visitando os locais mais emblemáticos da minha mocidade vivida em Maputo, fiz uma pausa retemperadora, num café do Alto-Maé.
O sumo de Lichia parecia caído do céu. À medida que o copo se esvaziava as forças voltavam, dando-me a confiança necessária para continuar por mais umas horas a minha romaria.
Enquanto regalado, fazia o ajuste de contas com o desejado néctar, reparei que em frente ao balcão do café, se alinhava em fila indiana gente que após breves instantes saía dali com uma  “tira “ cheia de cartões do tipo “raspadinha “ , depois de aliviarem o bolso de alguns meticais.
Aquele vaivém de pessoas que pareciam viver um ritual habitual, despertou-me a curiosidade.
E como gosto pouco de guardar dúvidas, solicitei um esclarecimento ao cortês empregado de mesa.E disse-me ele, que aquele movimento, para mim  inusitado, se devia à venda de recargas.
Fiquei na mesma. O que seriam as ditas “recargas”?
Não quis abusar da disponibilidade do referido empregado e saí com a dúvida a morder-me os neurónios.
Na rua, tinha já reparado em inúmeros jovens, que vestiam um colete de um amarelo, luminescente com a inscrição “ Compra o teu giro comigo”.
Assim, da dúvida à certeza foi um instante. Aqueles jovens, traziam consigo as tiras com recargas para telemóveis. Percebi então que em função do valor pago pelo cliente, assim era entregue o cartão do tipo “raspadinha”
O cliente que vira baixar o  saldo do seu telemóvel  para níveis preocupantes, adquiria esses cartões e raspava a zona criada para esse efeito, pondo a nu um código de vários números. Esse código era introduzido no telemóvel, e como que por magia o  Bula Bula (*) regressava às máquinas.
Esses jovens creditados para a venda das recargas, percorriam toda a cidade, muitas das vezes em grupos de dois, e onde estivesse a necessidade do cliente, estavam eles em forma de solução instantânea. E  pensei  que esta situação era mais uma oportunidade para aplicar o ditado “Se Maomé não vai à montanha a montanha vai à Maomé”
Não estando as novas tecnologias, em Moçambique, ao alcance de muitos, como acontece na Europa, as empresas de telecomunicações encontraram uma forma rápida e eficaz de colocar à disposição dos clientes, estas máquinas humanas de colete vistosos, sempre tão prontos a satisfazer os clientes.
Parece-me que esta forma de simplificar os problemas com recurso a metodologias criativas, é uma característica  vincada do povo Moçambicano que sabe aguçar o engenho quando a necessidade aperta.

Aurélio Terra

(*) do Tsonga, significa conversar

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A antiga praça

 

Nas viagens ao passado, repetidamente retocadas pala emoção e saudade, a antiga Praça 7 de Março (hoje 25 de Junho) merece necessariamente motivo de realce. Segundo rezam, as crónicas da época, aquela praça outrora um modesto jardim foi o berço do nascimento da bela cidade das acácias. Foi daquele local que se traçaram a régua e esquadro, as artérias que ligariam a parte baixa à ala mais elevada da cidade. Ficava a dois passos de tudo e, configurava com a célebre casa amarela, antiga residência dos governadores (hoje Museu Nacional da Moeda) com o Banco BCCI e com a antiga Fortaleza. Em frente encontrava-se erguido o monumento a António Enes e a porta de acesso à zona portuária, por onde passei inúmeras vezes para apanhar o “gasolineiro” que fazia a travessia da Baía Espírito Santo com destino à Catembe. Recordo o seu bem concebido coreto, onde atuava a Banda musical do Ferroviário e a zona das esplanadas rodeadas de canteiros de flores garridas e de um arvoredo protetor contra o sol inclemente. Olho-a e vejo a famosa esplanada do Café Nicola, onde os seus habituais frequentadores, entre uma meia de leite e uma torrada, folheavam páginas dos matutinos citadinos e alimentavam conversas, que não se falando de nada, falava-se de tudo. Por lá terminavam os passeios clássicos de famílias e amigos, depois de repousarem nos tradicionais bancos de ripas à fresca. A garotada corria pelos passeios e interiores em brincadeiras próprias da sua exuberância à espera do apetecido lanche, quase sempre uma arrufada ou uma bola de Berlim, acompanhada de uma Coca-Cola bem gelada. Ao entardecer como era agradável sentir o cheiro de maresia, emanado do Cais Gorjão. Também me lembro que nesse espaço verde se realizavam feiras do livro. Hoje quanto sei têm lugar na Praça todos os sábados, feiras de artesanato muito procuradas por todos os turistas que deambulam pela Baixa, à procura de uma valiosa recordação. A antiga praça jamais perderá a virtude de se tornar num símbolo histórico, que marcou várias gerações de gente que a conheceu e lá viveu.

Manuel Terra

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Maputo-Cidade viva

 

Começa bem cedo o dia, em Maputo.Assinala o relógio as 5h30  e percebe-se logo que a cidade vai encher. Oriundo  de todos os quadrantes, como formiguinhas seguindo o seu carreiro, “desagua” na Capital, gente com os mais diversos fins.
Num ápice a memória se socorreu de lembranças passadas, fazendo-me recordar  que nos meus tempos de estudante, naquela terra,  acordava bem cedo para estar a horas na escola, onde às 7h15 começavam as tarefas escolares.
Os acessos rodoviários à cidade de Maputo, congestionam-se. Os “chapas” (1) não têm rodas a medir. Vão e vêm repletos de gente, que se comprime para criar, sempre, um lugar para mais um.Parecem não ter paragens muito definidas.Sempre que há gente para entrar ou sair, a paragem faz-ze. A utilidade deste meio de transporte é inquestionável, embora os padrões de segurança sejam letra morta.
Para a Catembe, partem apinhados de gente, os ferry-boats. Saem a toda a hora.O serviço é contínuo. È partir, chegar e voltar a partir. Não há pausas.
As ruas de Maputo, em pouco tempo, conhecem uma multidão numerosa e compacta.É gente que vende, gente que compra, gente que passeia, e gente que não dispensa um “bom dia” à prazenteira terra, mesmo que seja apenas para dedicar parte do seu tempo à Bula Bula (2).
Ao fim do dia, e com a noite  instalada, olhava para a cidade a partir da varanda do hotel. Impressionante a velocidade a que a cidade se tinha despedido da sua gente. Não descortinava uma viva alma.Parecia mesmo que alguém tinha tirado o tampão da cidade e que por aí se tinha escoado a povoação. Puro engano! Na zona do Zambi e da Polana os restaurantes dignos desse nome estavam quase a rebentar pelas costuras. Nas mesas, gente de todos os feitios e cores parecia estar a começar o seu dia, tal era a vivacidade  com que trocavam dois dedos (seriam mais) de conversa, enquanto davam ao marisco acompanhado duma Laurentina, preta ou dourada, o destino que lhe foi traçado, a partir do momento em que consultaram a ementa.
Claro que não se come só marisco, nem se serve de bebida apenas  cerveja. Os amantes de uma boa carne também não ficam decepcionados, mesmo que queiram acompanhá-la com um bom vinho português.Neste caso, terão que puxar um pouco pelos cordões à bolsa.Há sempre a alternativa dos vinhos sul-africanos, que castigando menos a carteira, também apresentam uma apreciável qualidade.
Na zona da boa restauração, onde se vive com intensidade o último terço do dia, é sempre bom ver , a presença de forças de segurança, quer privadas quer públicas.
E no fim do dia, pensava para mim, que isto de se ser Africano (de nascença ou  de coração)é  uma forma muito própria de se estar na vida, mais do que o próprio facto de se ter nascido naquele continente.
Que bom foi reencontrar Maputo cheio de vida!

Aurélio Terra

(1)mercado paralelo de transportes rodoviários semi-colectivos, em média com uma capacidade para 12 pessoas, explorados por privados

(2)do tsonga significa conversar